São 4 cooperativas indígenas pedindo “direito de produzir”

16.600 hectares de grãos numa área de 1,2 milhão de há, dentro da lei, na forma de 4 cooperativas indígenas está certo ou está errado? Conversei com Cláudio Glass, da Amigo da Terra insumos de Campo Novo de Parecis (MT), que me apresentou o diretor presidente da Coopiparesi, o Lúcio Avelino Ozanazokaese; o diretor financeiro, Genilson André Kezomae; e a diretora secretária Mishele Anizokaero.

Eles me contaram a história da luta desse povo para poder cultivar grãos com tecnologia e com isso melhorar a qualidade de vida da sua população indígena. Desde 2003 os “Pareci” tem conseguido autorizações com os órgãos competentes envolvidos nas questões dos índios. E tem progredido. Formaram 4 cooperativas: a Coopiparesi (Cooperativa Agropecuária do Povo Indígena Haliti Paresi); a Coopihanama (Haliti, Nambikwara e Monoki); Coopermatsene (Cooperativa dos Produtores Rurais da Cultura Mecanizada da etnia Pareci); e a Coopirio (Cooperativa Agropecuária Indígena Rio Verde). Me explicaram Genilson e Lúcio, que ao contrário de haver um abandono da cultura, com a renda obtida na lavoura moderna, conseguem preservar a dignidade do seu povo. Muito pior me disseram eles é pela pobreza, ficarem os índios trabalhando de empregados, e sendo assediados, aliciados para coisas ruim.

Ao todo são 80 aldeias Pareci e seguem as tradições com os rituais da “oferenda”. O resultado é coletivo e para todos, descontadas as contas a serem pagas. A pergunta que me fizeram é por que os índios não podem desenvolver uma atividade moderna que gere renda, sem perder os fundamentos da sua sabedoria secular, e com isso alcançarem dignidade de vida como protagonistas dos seus destinos? E me perguntaram o que eu acharia se fosse obrigado a viver igual aos meus ancestrais de 500 anos atrás? E por que a cultura não pode ser da mesma forma preservada, e até melhor, com independência financeira, sempre dentro do mesmo fundamento coletivo: para todos?

Essa área de 16.600 hectares de soja está sendo cultivada dentro dos padrões convencionais. E tem a dimensão não para acúmulo de capital, e sim para oferecer a desejada dignidade básica de vida para todos. Na conversa com Genilson, ele me explicava que os valores do povo indígena estarão sempre muito dependentes dos seus caciques, a liderança. E salientava que ele obteve autorização das demais nações para realizar o que compreendesse fosse o melhor para seu povo, independentemente de outros índios não concordarem com os Pareci. Afinal, o tema indígena é deveras controverso no país, e o maior receio de Genilson e Lúcio é exatamente a “polarização política da questão”.

Além da iniciativa com os grãos com tecnologia, eles mantêm os demais hábitos, a pesca, mandioca, frutas, batata, a preservação da natureza e o turismo, a segurança ambiental fica muito mais assegurada com renda para viver do que como vítimas dos aliciadores, segundo me explicaram.

“Queremos terminar com o sofrimento do nosso povo indígena podendo trabalhar com tecnologia e seguindo todos os ritos da nossa cultura, coletivo, cooperativa e tudo para todos.” Dessa forma encerramos nossa conversa on-line, e de fato fica aqui a minha pergunta sobre o que é certo ou errado? Como ser humano, quando pergunto para mim mesmo, não creio ser justo e digno impedirmos seres humanos de terem acesso ao progresso científico e econômico. Mas como não sou indigenista deixo esta pergunta para ouvir, e ler, as observações dos leitores, ouvintes, especialistas, sejam eles índios ou não!

O problema que enfrentam agora é que as indústrias não querem comprar a produção, com medo das consequências de imagem e repercussão de poderem ser vistos como “explorando índios”! Aí está um belo problema a ser tratado. Ou talvez uma oportunidade com a criação de certificação, rastreabilidade e um selo global de originação indígena, “sustainable science based”. Podemos imaginar ou índios não podem prosperar? E se não prosperarem seria inteligente acreditar que guardiões das matas irão para sempre ficar? Inovações como bioeconomia, ecoturismo, um planejamento estratégico, sem dúvida,deveríamos convocar para um olhar de negócios sustentáveis nesse tema.

Mas enquanto isso Mishele Anizokaero, a diretora secretária da Coopipareci, me diz entusiasmada o que estão desenvolvendo na área do treinamento e da educação dos seus indígenas. Confesso, é comovente. Como um professor, escritor, jornalista e brasileiro desejo aos Haliti Paresi, Nambikwara e Manoki, e suas cooperativas um caminho sensato e de dignidade para todos. O sofrimento não pode prevalecer. O Cooperativismo irá vencer.

José Luiz Tejon, jornalista, publicitário, Doutor em Educação pela Universidad de La Empresa no Uruguai; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pelo Mackenzie; Prof. In Company na FGV; Prof. na FECAP; Coord. do programa Master Science Food & Agribusiness Management da Audencia Business School na França. Dr. em Educação com especializações em Harvard, Pace University, MIT e INSEAD nas áreas de Marketing, Vendas, New Mídia, Agribusiness e Liderança.

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